O que a ciência nos diz sobre o corpo feminino ‘ideal’

Muitos estudiosos do Renascimento dizem que o quadro O Nascimento de Vênus capta a tensão entre a perfeição celestial da beleza divina e sua manifestação terrena e falha. Quando as ideias clássicas renasceram na Florença do século 14, Botticelli não pode ter deixado de entrar em contato com a visão neoplatônica de que contemplar a beleza terrena nos ensina sobre o divino.

Musas-salvem-se-quem-puder

Os biólogos evolutivos não são muito neoplatônicos. Como a maioria dos cientistas, faz tempo que deixamos de contemplar o celestial, já que -parafraseando as palavras imortais ditas por Laplace a Napoleão – “não temos necessidade dessa hipótese”.

É a imperfeição do mundo real que nos interessa.

O artigo publicado originalmente na The Conversation e adaptado pelo HuffPost US:

Da cintura ao quadril

Em nenhuma área a distinção estéril entre biologia e cultura se evidencia fisicamente mais que na discussão das formas corporais femininas e sua atratividade. O estudo biológico da forma corporal se debruça, há duas décadas, sobre a proporção entre a circunferência da cintura e a do quadril.

Com a manipulação experimental inteligente de desenhos lineares, Devendra Singh demonstrou que as imagens de mulheres com cinturas que medem 70% da circunferência de seus quadris tendem a ser as mais atraentes. Essa razão de 0,7:1 entre cintura e quadril (RCQ) também reflete uma distribuição de gordura abdominal associada à boa saúde e fertilidade.

Singh também demonstrou que as ganhadoras do concurso de Miss América e as modelos da Playboy tendem a ter uma RCQ de 0.7, apesar das mudanças na esbelteza dessas duas categorias de mulheres vistas como encarnação dos ideais de beleza americanos.

Os experimentos de Singh foram repetidos em vários países e sociedades que diferem em termos de forma corporal média e ideais aparentes. Os resultados não foram unânimes, mas na maioria dos casos uma razão de 0.7 entre cintura e quadril surgiu como a mais atraente. A ideia de uma razão ótima é tão atraente, em sua simplicidade, que, para revistas como a Cosmo, ela virou um factoide repetido sempre.

Há muito que pode se contestar nas pesquisas sobre razão entre cintura e quadril. Alguns pesquisadores constataram que outros índices, como o Índice de Massa Corporal (IMC), explicam a atratividade corporal com mais precisão.

Mas outros rejeitam por completo o reducionismo de medidas como a RCQ e o ICM. Essa rejeição chega ao extremo na noção de que as ideias de atratividade corporal são inteiramente arbitrárias, construídas culturalmente. Ou, de modo mais sinistro, que teriam sido traçadas por nossos senhores capitalistas na indústria das dietas, de modo a serem inatingíveis por natureza.

As evidências? A observação de que os corpos femininos diferem, na média, segundo o lugar e a época. Essa é a ideia que anima o seguinte vídeo, que deixa a desejar em termos de valores de produção e de conteúdo mas foi visto um número astronômico de vezes (mais de 21 milhões de vezes até o momento em que este texto foi escrito):


Este vídeo um tanto questionável, intitulado “Os tipos corporais femininos ideais ao longo da história” (Women’s Ideal Body Types Throughout History), está fazendo sucesso no YouTube.

Noto que a Vênus de Botticelli parece estar mais em casa no século 20 que entre as mulheres renascentistas “ideais”, mais cheinhas. É o mesmo caso dos deuses e deusas de La Primavera. Talvez houvesse espaço para mais de um tipo de corpo atraente na Renascença florentina, quem sabe? Ou será que a relação entre atratividade e forma corporal é menos mutável e mais variada que os vídeos como o acima querem nos fazer crer?

Não que eu critique a diversidade de formas corporais. Apesar de que parece haver apenas uma opção para quem quer ser supermodelo, as mulheres da vida real diferem dramaticamente, e tipos corporais muito diferentes podem ser igualmente atraentes. A ciência da atratividade precisa levar em conta a variedade, tanto no interior das sociedades quanto entre uma sociedade e outra.

O BodyLab

Nosso grupo de pesquisas examina essas questões há alguns anos e estuda o fato de que os corpos variam em tantas outras dimensões, não apenas no tocante a cinturas e quadris. Para isso, criamos o projeto BodyLab, um “ecossistema digital” em que pessoas de todas as partes da Internet atribuem notas à atratividade de corpos de aparência curiosa, como o exemplo masculino abaixo.

evolução do homemExemplo de imagem do “ecossistema digital” do BodyLab. O Fusquinha está presente por ser um símbolo universal de algo um pouco mais baixo que um humano adulto. Os rostos estão pixelados para preservar o anonimato de qualquer pessoa cinza. (Rob Brooks/BodyLab.biz)

Nós o chamamos de “ecossistema digital” não para sermos pretensiosos, mas porque este experimento envolveu várias gerações de seleção e evolução. Começamos com as medidas corporais de 20 mulheres americanas, uma amostra representativa de uma larga variedade de formas corporais.

Em seguida, fizemos “mutações” nessas medidas, adicionando ou subtraindo quantidades pequenas de variações aleatórias em cada uma de 24 características. Com essas medidas modificadas por mutação, construímos corpos digitais, dando a cada um deles um tom de pele cinza médio, para tentar manter as variações de cor e textura de pele fora da história, que já era complexa.

Se você quiser ajudar em nosso segundo estudo, sobre corpos masculinos, vá ao BodyLab e clique sobre BodyShape Study e depois Rate Males (Generation 6).

Tudo isso envolveu inovações tecnológicas consideráveis, resultando num experimento diferente de qualquer outro. Tínhamos uma população de corpos (120 por geração) que podíamos selecionar, depois de alguns milhares de pessoas lhe terem dado notas de atratividade. Em seguida, “criamos” a nova geração a partir do 50% mais atraente dos modelos, e depois lançamos a nova geração no ecossistema digital.

O que encontramos? Num artigo recém-publicado pela Evolution & Human Behavior, o resultado mais notável foi que o modelo médio foi ficando mais esbelto a cada geração sucessiva. Quase todas as medidas de circunferência se reduziram muito, enquanto braços e pernas evoluíram para ficar mais longos.
evolução_mulher
Em oito gerações, o corpo médio ficou mais esbelto. As circunferências da cintura, dos quadris, ombros, busto, debaixo do busto, antebraço, bíceps, panturrilhas e coxas todas diminuíram em mais de um desvio padrão. Ao mesmo tempo, o comprimento da perna (a parte interna) cresceu em 1,4 desvio padrão. (Rob Brooks)

Talvez não seja surpreendente, especialmente porque as famílias “criadas” a partir dos indivíduos com mais sobrepeso no início do experimento foram eliminadas nas primeiras gerações.
Depois disso, porém, mais famílias permaneceram no ecossistema digital – sobrevivendo a uma geração após outra de seleção – do que teríamos previsto se houvesse um único tipo corporal mais atraente. O processo darwiniano que impusemos a nossos corpos tinha começado a agir sobre as mutações que acrescentamos durante o processo de reprodução.

Mais significativo que a média

As “mutações” que introduzimos permitiram que os corpos evoluíssem livres de todas as limitações de desenvolvimento que se aplicam aos corpos da vida real. Por exemplo, o comprimento da perna podia evoluir independentemente do comprimento dos braços. As cinturas podiam encolher ao mesmo tempo em que as coxas engrossavam.

Quando examinamos as cinco famílias que duraram mais tempo em meio à evolução de nosso ecossistema digital, observamos algumas nuances interessantes.

Primeiro, a seleção visou o próprio tamanho da cintura, não a relação entre cintura e quadril. Nenhum modelo estatístico envolvendo tamanho de quadril (ou por si só ou em uma razão entre cintura e quadril) conseguiu chegar perto de explicar a atratividade e o tamanho da cintura por si só. Nossos participantes gostavam do visual das modelos esbeltas com cinturas especialmente esbeltas. Não havia nada de mágico na razão de 0.7 entre cintura e quadril.

Em segundo lugar, dentro das famílias atraentes, que eram as que já começaram mais esbeltas, a evolução contrariou a tendência da população mais geral. Esses corpos começaram a evoluir para ficar mais moldados, com bustos maiores e curvas mais substanciais.

Descobrimos que existe mais de uma maneira de criar um corpo atraente, e esses tipos corporais diferentes evoluem para ser bem integrados. Isso encerra uma mensagem libertadora para a maioria de nós: a biologia evolutiva tem mais a oferecer ao nosso entendimento da diversidade que a ideia de que um único corpo (ou rosto ou personalidade) “mais atraente” sempre sai ganhando.

E como ficam os construcionistas culturais? Os ideias corporais são arbitrários? Ou são ferramentas do complexo patriarcal-comercial?

Nossos resultados sugerem que as semelhanças entre locais, e até entre avaliadores homens e mulheres, são grandes: as cerca de 60 mil pessoas que olharam nossas imagens e atribuíram notas a elas tinham ideias de modo geral semelhantes sobre o que é belo e o que não é. Mas seus gostos não eram uniformes. Achamos que a maioria dos indivíduos consegue enxergar beleza na diversidade, mesmo que não na gama completa de diversidade possível.

Mas o que é bacana sobre nossos corpos em evolução é que podemos repetir o experimento muitas vezes. Podemos repeti-lo com grupos diferentes de participantes, ou talvez com os mesmos participantes antes e depois de terem passado por algum tipo de intervenção (talvez um trabalho de conscientização de imagem corporal?). Espero que possamos usá-los para estudar, com profundidade inusitada, as interações complexas entre vivência, cultura e biologia.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s